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20, 07, 2010

O Estupro e a Emissora

Por Paulo Roberto - Editoria: Coluna do Paulo, Cotidiano, Mídia
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Demorei para comentar o caso, e acho que, assim, consegui expressar melhor minhas impressões. Estou falando do famoso caso em que três adolescentes estupraram (ou são acusados de…) uma adolescente, em Florianópolis.

Esconder crimes de menores de idade: responsabilidade ou censura?

Não é necessário manifestar-se contra o estupro. Tampouco é humano aceitar qualquer desculpa que questione a índole da garota, muito menos para tentar justificar tal fato. O foco desta coluna é sobre a transmissão, sobre a cobertura (no bom sentido) do episódio pela mídia catarinense.

Simplesmente apedrejar o Grupo que pertence ao pai de um dos acusados é uma atitude, acima de tudo, baixa. Associar o nome da empresa ao caso de estupro não condiz com a realidade, para ser gentil. Além do pivete não trabalhar na empresa, não representar a vontade/opinião da empresa, não se pode considerar que todo o Grupo seja a favor de tal atitude.

Óbvio que o fato não foi prontamente noticiado. Não foi por “n” motivos. Não interessava à diretoria da emissora? A emissora não noticia casos de violência contra menores? Pouco importa. O fato é que, sobretudo a partir do momento em que uma emissora concorrente “comprou o caso” e exibiu-o no noticiário nacional, as vozes contrárias ao Grupo se tornaram verdadeiros simples apedrejadores.

O melhor exemplo é o blog Tijoladas do Mosquito, do blogueiro Amilton Alexandre (www.tijoladasdomosquito.com.br ) é um bom exemplo disso. Eu o considerava uma boa fonte alternativa de notícias, até ele se perder nesta briga. Cego por atingir a imagem do Grupo, acabou por tornar-se cansativo e enfadonho. Conseguiu a proeza de tentar botar num mesmo saco o menor, o Grupo, os profissionais das empresas do grupo, e os anunciantes destas empresas. Passou dos limites.

Sou um lutador pela democratização da mídia. Mas, democratizar a mídia não quer dizer que o Grupo RBS fará reuniões públicas de pauta, que decidirão o que será publicado pelos seus veículos, e sob qual enfoque isso acontecerá. Como qualquer empresa privada, o Grupo tem autonomia para escolher os seus caminhos. Neste ponto, abraço-me a um argumento liberal: o mercado deve regular. Não há mercado? É outro papo.

O fato é que, hoje, mesmo diante de um oligopólio do grupo gaúcho na mídia catarinense, não há uma alternativa viável. E isso ocorre simplesmente por mesquinhez e falta de organização dos concorrentes. Criticar a forma como a RBS aborda (ou não) determinado assunto é fácil, é cômodo. Organizar-se é difícil. Abrir mão de picuinhas na briga pelo segundo (terceiro, às vezes quarto) lugar na disputa, é mais difícil ainda.

A democratização da comunicação passa, obrigatoriamente, pela questão das concessões públicas de rádio e televisão. O próprio grupo RBS (e seus concorrentes também) utilizam-se desta zona de conforto, conquistada através de tramóias políticas e/ou financeiras, para garantir o seu espaço. No dia em que qualquer cidadão puder estabelecer sua emissora para todo o público, haverá liberdade de opinião. Antes disso, não.

Com liberdade para a competição entre versões, a população acabará decidindo o que quer seguir, em qual versão quer acreditar. O sistema de concessões só faz com que a multiplicidade de vozes seja calada em nome de interesses comuns e promíscuos. Apesar de soar utópico e idealista demais, o exemplo da cobertura deste caso prova o meu argumento. Alguém acreditou na versão noticiada pelos veículos da RBS sobre o caso dos adolescentes? Alguém acreditará em algum ponto a ser divulgado sobre o mesmo caso? Não! Porque ficou óbvio que eles têm interesse no assunto.

Esse é o fenômeno da múltiplas vozes e versões. A essência do jornalismo, da mídia e da comunicação social, ao meu ver. É fácil? Não. Mas, será mais difícil se não pararmos para pensar. Aceitar o problema é o primeiro passo para corrigí-lo. Aceitemos o primeiro passo. Mudemos.


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