O Estupro e a Emissora
Por Paulo Roberto - Editoria: Coluna do Paulo, Cotidiano, MídiaTags: Coluna, concessões públicas, democratização, estupro, grupo, menor, Mídia, Mosquito, Paulo, RBS, Tijoladas
Demorei para comentar o caso, e acho que, assim, consegui expressar melhor minhas impressões. Estou falando do famoso caso em que três adolescentes estupraram (ou são acusados de…) uma adolescente, em Florianópolis.
Não é necessário manifestar-se contra o estupro. Tampouco é humano aceitar qualquer desculpa que questione a índole da garota, muito menos para tentar justificar tal fato. O foco desta coluna é sobre a transmissão, sobre a cobertura (no bom sentido) do episódio pela mídia catarinense.
Simplesmente apedrejar o Grupo que pertence ao pai de um dos acusados é uma atitude, acima de tudo, baixa. Associar o nome da empresa ao caso de estupro não condiz com a realidade, para ser gentil. Além do pivete não trabalhar na empresa, não representar a vontade/opinião da empresa, não se pode considerar que todo o Grupo seja a favor de tal atitude.
Óbvio que o fato não foi prontamente noticiado. Não foi por “n” motivos. Não interessava à diretoria da emissora? A emissora não noticia casos de violência contra menores? Pouco importa. O fato é que, sobretudo a partir do momento em que uma emissora concorrente “comprou o caso” e exibiu-o no noticiário nacional, as vozes contrárias ao Grupo se tornaram verdadeiros simples apedrejadores.
O melhor exemplo é o blog Tijoladas do Mosquito, do blogueiro Amilton Alexandre (www.tijoladasdomosquito.com.br ) é um bom exemplo disso. Eu o considerava uma boa fonte alternativa de notícias, até ele se perder nesta briga. Cego por atingir a imagem do Grupo, acabou por tornar-se cansativo e enfadonho. Conseguiu a proeza de tentar botar num mesmo saco o menor, o Grupo, os profissionais das empresas do grupo, e os anunciantes destas empresas. Passou dos limites.
Sou um lutador pela democratização da mídia. Mas, democratizar a mídia não quer dizer que o Grupo RBS fará reuniões públicas de pauta, que decidirão o que será publicado pelos seus veículos, e sob qual enfoque isso acontecerá. Como qualquer empresa privada, o Grupo tem autonomia para escolher os seus caminhos. Neste ponto, abraço-me a um argumento liberal: o mercado deve regular. Não há mercado? É outro papo.
O fato é que, hoje, mesmo diante de um oligopólio do grupo gaúcho na mídia catarinense, não há uma alternativa viável. E isso ocorre simplesmente por mesquinhez e falta de organização dos concorrentes. Criticar a forma como a RBS aborda (ou não) determinado assunto é fácil, é cômodo. Organizar-se é difícil. Abrir mão de picuinhas na briga pelo segundo (terceiro, às vezes quarto) lugar na disputa, é mais difícil ainda.
A democratização da comunicação passa, obrigatoriamente, pela questão das concessões públicas de rádio e televisão. O próprio grupo RBS (e seus concorrentes também) utilizam-se desta zona de conforto, conquistada através de tramóias políticas e/ou financeiras, para garantir o seu espaço. No dia em que qualquer cidadão puder estabelecer sua emissora para todo o público, haverá liberdade de opinião. Antes disso, não.
Com liberdade para a competição entre versões, a população acabará decidindo o que quer seguir, em qual versão quer acreditar. O sistema de concessões só faz com que a multiplicidade de vozes seja calada em nome de interesses comuns e promíscuos. Apesar de soar utópico e idealista demais, o exemplo da cobertura deste caso prova o meu argumento. Alguém acreditou na versão noticiada pelos veículos da RBS sobre o caso dos adolescentes? Alguém acreditará em algum ponto a ser divulgado sobre o mesmo caso? Não! Porque ficou óbvio que eles têm interesse no assunto.
Esse é o fenômeno da múltiplas vozes e versões. A essência do jornalismo, da mídia e da comunicação social, ao meu ver. É fácil? Não. Mas, será mais difícil se não pararmos para pensar. Aceitar o problema é o primeiro passo para corrigí-lo. Aceitemos o primeiro passo. Mudemos.







Agora pode passar lá na portaria da RBS e pegar o cheque.