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Os rolezinhos, os brucutus e os jornalistas

A proibição dos rolezinhos em shopping centers de São Paulo está em discussão em todo o país (se você não sabe ou não pegou o começo da história, dá uma lida na matéria do El País). Falta de locais públicos para o lazer nas grandes cidades, choque entre classes sociais, o consumo e a ostentação em alta na periferia são grandes temas que merecem debates, estudos aprofundados com antropólogos, sociólogos, psicólogos e governantes, que também possuem suas responsabilidades com o lazer.

Mas os temas que o Controversas vai abordar neste texto são outros. Não estamos em São Paulo para aprofundar a discussão sobre os jovens que fazem os rolezinhos e trata-se de uma questão complexa para emitir um posicionamento sobre benefícios e problemas gerados nesses movimentos. O que entra em discussão aqui é o comportamento dos usuários da internet ao lerem as notícias sobre o assunto e a participação da mídia e dos formadores de opinião no caso.

O comportamento raivoso e intolerante dos “comentaristas de notícias e redes sociais” já é objeto de estudo em todo o mundo. Foi parar até na literatura, na obra “Reprodução”, de Bernardo Carvalho, onde o protagonista vomita uma série de preconceitos de internet durante um interrogatório. A reação dos usuários com a ação das polícias e da direção dos shoppings com os rolezinhos era esperada. De um lado, pesoasxingando os jovens da periferia de bandidos, vagabundos e desocupados, mesmo sem conhecer os participantes. O evento não era dia de semana e os criadores do evento são trabalhadores que tem nos finais de semana, o tempo para o lazer. Acusar alguém de bandido aleatoriamente é crime. De outro, os defensores dos jovens denunciando um apartheid social sem analisar o assunto direito, sem colocar em questão que um shopping não é um local adequado para um evento com 2,5 mil pessoas.

Como dissemos antes, a discussão sobre os jovens da periferia nos shoppings, templos da classe média, é boa. O fato desses locais serem privados, apesar da circulação pública, também. Poderíamos ter uma ótima reflexão sobre o tema, com pessoas defendendo e criticando os rolezinhos, mas nada disso foi visto. Na maioria dos casos, eram apenas usuários de redes sociais vomitando clichês, sejam eles de direita ou esquerda.

Chamar um cidadão qualquer de bandido é crime. Pedir em um espaço público (redes sociais) para que os seguranças desçam a porrada, também. Alguns dos que defendem a ordem pública estão fazendo apologia a violência. O jovem ou adolescente que participou do rolezinho e não se envolveu em nada não pode ser criminalizado e pronto.

A imprensa poderia melhorar o nível do debate, já que nos comentários das notícias, a ignorância e a raiva imperam. E temos bons textos sobre o assunto. Leandro Beguoci, no site Oene, fez uma ótima análise do caso. Eliane Brum, no El País, também mandou bem. Mas teve gente na imprensa que abasteceu os raivosos de plantão, com um comportamento parecido.

Temos bastante gente na internet chamando os jovens de vagabundos, desocupados, marginais, etc. Não precisaríamos de um jornalista em rede nacional para dizer isso. Mas alguns dos nossos âncoras, que fazem pose de polêmicos, adoram mesmo é jogar para a plateia dizendo exatamente o que ela quer ouvir. Com um discurso tão raso quanto o comentarista de blogs, eles empobrecem o debate em troca da fama, da repercussão.

Arautos do senso comum, alguns jornalistas ganham a fama de polêmicos dizendo aquilo que a maioria já pensa, reforçando os preconceitos existentes na sociedade. Não ousam desagradar seus telespectadores, ouvintes e leitores, tirá-los da zona de conforto e forçá-los a pensar sobre o assunto.

Se o debate político e social está cada vez mais pobre no Brasil, uma boa parte da culpa é nossa, dos jornalistas.

Produzido em WordPress | Por: Giovanni Ramos